A sua cara imutável
Seus traços congelados
E a sua pele fria,
E vazia.
Peguei uma foto sua. A minha preferida, claro, eu que tirei. E lembrei do dia em que a tirei.
Um pouco antes da foto você disse que sua orelha estava quente, nunca um bom sinal, e eu disse:
- Você me ama?
- Mais do que a mim própria.
- Então o que pode dar errado?
Nada, nada poderia dar errado. E o seu rosto continua na minha frente, como se fosse real, sinto o teu cheiro pelo papel da foto e meu coração se alegra com uma mera lembrança do que você é.
Enfim, você ficou quieta, e eu tirei a foto. Na hora eu não interpretei o teu silêncio como deveria. Deveria ter prestado atenção nos sinais bobos, mas você sempre brincava com isso.
- Saudade mata?
- Não.
- Como não? Você não sabe.
- Sei sim, não pode matar, não pode.
- Tá tudo bem?
- Promete que nunca vai morrer de saudade?
E eu prometi. Agora não sei se sou capaz de cumprir essa promessa. Na hora, no instante, eu achei que você tinha medo de me perder. Só agora vejo que você tinha medo de eu me perder.
Teus olhos continuam a me encarar, quando fecho os meus olhos, só me lembro dessa imagem: Seu rosto sério, lábios cheios, olhar muito profundo, melancólico. Parece uma estátua.
Agora que você é pó, eu estou me deteriorando. Eu vou virar pó. Contra a sua vontade, quebrando a ultima promessa. Pó, de cheirar, pó, de soprar.
Eu sou pó, você é pó.

0 comentários:
Postar um comentário