sábado, 10 de outubro de 2009

E eu chorei,


Acordei e o céu estava claro, mas também estava escuro. Nele eu via imagens passando, pregadas nas nuvens. Meu primeiro beijo, meu primeiro texto, minha primeira máscara. Ao longe , nas nuvens, dava pra ver imagens em que eu aparecia, mas tinha certeza que ainda não tinha vivido. O futuro, não é? Que tal dar uma espiadinha? Não, prefiro deixar acontecer. Que graça teria ver a mulher da minha vida e ter certeza que ela iria me corresponder? E saber exatamente a cor das bochechas dos nossos filhos? Não, prefiro deixar acontecer.

Levantei e me olhei no espelho, ele ia se moldando ao que eu estava pensando, ao meu humor. De repente eu estava vestido exatamente como a minha alma pedia, e isso era estranho. Tinha coisas coloridas no cabelo, algo que sempre tive vontade mas nunca coragem. Olhei pela janela e vi que o mundo estava diferente. Vi as crianças que normalmente eram pedintes na minha rua, mas elas estavam diferentes. Sem trapos como roupas, elas estavam lindas. E brincando com todas as outras, em um parquinho posto no lugar onde ficava o lixão.

Vi as flores, e elas sorriram pra mim. Senti o vento, que sussurrou no meu ouvido:

- Vá a favela hoje, veja como ela ficou. Talvez queira levar a sua pipa.
- Mas eu não tenho uma pipa.
- Aquela amarela e vermelha.

Olhei para dentro e vi meu guarda chuva, era o que mais parecia com aquela descrição. E levei.

Cheguei onde ficava a favela, onde eu passava todos os dias, onde eu chorava muitas vezes, quando via crianças sem esperança nos olhos. Sempre gostava de lembrar algo que a mãe de uma amiga me falou um dia:

- Todos tem esperança.
- Não, existem pessoas sem alguma esperança.
- Sim, esses tem a maior das esperanças.
- E qual é?
- Eles tem esperança de um dia terem esperança.

As crianças não estavam mais lá. No lugar um gramado sem fim, vazio. Peguei a minha ‘pipa’ e andei pelo gramado, respirando o cheiro da alegria que agora contagiava o local. E vi, ao longe, pessoas vindo.

Irreconhecíveis, por causa da distância. Mas pouco a pouco eu percebia quem eram. Uma menina com os olhos marcados, com o sorriso no rosto, e com a barriga engravidada. E eu chorei, pois ela já não fumava mais.

Vi também dois meninos, as mãos dadas, o menor não prestava atenção em nada, somente no rosto do outro. E o maior ria, e suas orelhas estavam muito vermelhas. E eu chorei, pois o amor não seria nada, senão aquilo.

Vi uma outra menina, misteriosa. Não sabia o que ela estava fazendo, mas ela estava feliz. Ela tinha uma flor azul na mão esquerda. E eu chorei, pois eu senti que ela nunca me deixaria só.

Atrás dela vinha um menino. Na verdade não era um menino. Ele tinha asas. Mas também não era um anjo. Fiquei olhando e ele sorriu. E eu chorei, pois sempre soube que ele acabaria voando.

E assim passaram, de um por um. Uma francesa, uma cheia de vida, um palhaço, uma modelo, duas médicas, uma estrela... Eram todos meus amigos, meus abrigos, minhas forças, meu destino.

Abri a pipa-guarda-chuva e um arco-íris apareceu. O vento veio e eu senti que era a hora. Mas antes eu falei pra ele:

- Me diga que é tudo verdade.

E ele me disse:

- Você não viu as nuvens.

E eu chorei, pois nunca iria parar de sorrir.

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