Ele abriu o laptop e clicou no Word. Uma manhã de domingo, o dia mais tedioso da semana. Eram aproximadamente seis da manhã e ele estava sentado na mesa do café da manhã. Vestia um pijama branco que sua cunhada havia lhe dado há uns 3 anos atrás em um amigo secreto. Ele olhava pra tela branca e não conseguia pensar em nada. ‘Nada? ‘Ele pensava. ‘Vendi quase um milhão de exemplares falando sobre uma menina e sua pedra dourada e agora não consigo pensar em nada?’. Realmente frustrante, porém ele sabia que uma hora ou outra a inspiração chegaria, sempre chegava. Resolveu ir dar uma olhada nos filhos, o quarto do Gustavo sempre o fazia sentir algo, talvez porque o lembrasse seu próprio quarto quando criança. Entrou e viu o filho dormindo, o travesseiro no chão, a cara amassada no colchão e todo descoberto. Cobriu o Gustavo e fechou a porta. Nada. Abriu a porta do quarto da filha, que já tinha 16 anos e provavelmente o xingaria se percebesse sua presença. Mas tinha alguma coisa errada, a Bianca não era tão gorda. Chegou mais perto. Era óbvio que a Bianca não tinha quatro pés também. Principalmente dois cheios de calos tipicamente obtidos em partidas de futebol.
Ele parou por um momento, pois não estava tendo a reação que esperava. Ele sabia que o seu bebê de 16 anos tinha transado com aquele menino, seja quem quer que ele fosse. Mas ele não queria expulsar o menino da casa, muito menos deixar a Bianca de castigo. É um processo natural, ele pensou. Ele próprio havia perdido a virgindade com 15 anos. Resolveu voltar pra sala, e o laptop estava lá, aberto na folha em branco do Word. Começou a sua história. ‘ E o pássaro voou...’ Não conseguia passar daí, mas era um começo.
Ele estava falando da filha, claro. A menininha voou e deu lugar pra mulher. Agora viriam filas e filas de namorados, ele com certeza não simpatizaria com a cara da maioria deles, mas aceitaria. De repente ele escuta o barulho da porta da sala e a Bianca aparece. Sozinha.
- Pai, você entrou no meu quarto?
- Não filha, porque?
- Ah... nada não. É que eu escutei o barulho da porta.
- Você deve é ter sonhado com isso. Ta na hora do café da manhã, melhor já acordar.
- Não não pai, não to com fome e provavelmente nem vou sair do meu quarto hoje. Prova de química amanhã. Tem uns lanchinhos que a mamãe deixou lá, eles vão forrar meu estômago. Vocês vão pra casa da tia Cida pro almoço hoje, né?
- Vamos sim.
- Ok então. Eu queria que, por favor, o senhor não fosse lá no quarto hoje. Eu realmente preciso estudar.
- Tudo bem filha, não a incomodarei. Bom estudo. Qual é a matéria mesmo?
- Química.
- Hm, e ele é bom em química?
- Ele quem?
- O moleque que ta dormindo com você.
-
-
- Pai...
- E eu realmente duvido que alguns sanduichinhos vão forrar o estomago dele, ninguém come tão pouco que nem você, muito menos um homem. E vai logo lavar esse rosto, porque se ele ver essa sua cara com certeza desapaixona.
- Pai... desculpa.
- Pelo que? Olha sua idade minha filha, se você acha que é a hora eu não posso discutir. E por mais careta que pareça, realmente não esquece da camisinha.
- Tudo bem...
- Ele é seu namorado?
- É sim pai, já tem um tempo...
- Então quando ele acordar traz ele pra tomar café da manhã com a gente. To imaginando a cara do Gustavo quando ver você com um menino.
- Nossa pai, eu pensei tanto em te contar. Se eu imaginasse que você teria essa reação já tinha contado faz tempo.
- Tudo bem filha.
Ela o encarou e sorriu. Ele sabia o que ela estava sentindo porque ele sentia o mesmo. Companheirismo. Ele sorriu. E toda a inspiração que ele precisava chegou. Ele apagou o que já havia escrito e começou ‘ E o pássaro pousou...’
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Postado por h.b às 10:32
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