segunda-feira, 26 de outubro de 2009

diz com que pernas eu devo seguir..

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

Eu te amo - Chico Buarque

sábado, 24 de outubro de 2009

Quero.

Quero as crianças sorrindo, sempre.

Quero a vida se mostrando esforçada, e que ela nos dê exatamente o que nós precisamos.

Quero menos choros, menos tristeza, menos falsidade.

Quero os atores atuando, e os dançarinos dançando, e os pensadores pensando.

Quero o amor renascendo, e morrendo, e nascendo de novo.

Quero que todos que amam sejam amados, proporcionalmente a quantidade que amam.

Quero novas canções, que nos alegrem, nos dispam, e nos façam chorar.

Quero mais abertura pra mente, novas idéias girando aqui dentro.

Quero um mundo solidário, pacifico, feliz e sustentável.

Quero o pai chorando com o filho.

Quero o fim de todos os preconceitos.

Quero mais demonstrações de afeto, e menos corações devastados.

Quero mais tempo pra amar, e menos pra sofrer de amor.

Quero os sonhos se tornando realidade.

Quero os escoteiros batendo à porta.

Quero a transformação da banalidade.

Quero gritar e tomar banhos de chuva.

Quero a vida,

E quero vivê-la.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ele abriu o laptop e clicou no Word. Uma manhã de domingo, o dia mais tedioso da semana. Eram aproximadamente seis da manhã e ele estava sentado na mesa do café da manhã. Vestia um pijama branco que sua cunhada havia lhe dado há uns 3 anos atrás em um amigo secreto. Ele olhava pra tela branca e não conseguia pensar em nada. ‘Nada? ‘Ele pensava. ‘Vendi quase um milhão de exemplares falando sobre uma menina e sua pedra dourada e agora não consigo pensar em nada?’. Realmente frustrante, porém ele sabia que uma hora ou outra a inspiração chegaria, sempre chegava. Resolveu ir dar uma olhada nos filhos, o quarto do Gustavo sempre o fazia sentir algo, talvez porque o lembrasse seu próprio quarto quando criança. Entrou e viu o filho dormindo, o travesseiro no chão, a cara amassada no colchão e todo descoberto. Cobriu o Gustavo e fechou a porta. Nada. Abriu a porta do quarto da filha, que já tinha 16 anos e provavelmente o xingaria se percebesse sua presença. Mas tinha alguma coisa errada, a Bianca não era tão gorda. Chegou mais perto. Era óbvio que a Bianca não tinha quatro pés também. Principalmente dois cheios de calos tipicamente obtidos em partidas de futebol.

Ele parou por um momento, pois não estava tendo a reação que esperava. Ele sabia que o seu bebê de 16 anos tinha transado com aquele menino, seja quem quer que ele fosse. Mas ele não queria expulsar o menino da casa, muito menos deixar a Bianca de castigo. É um processo natural, ele pensou. Ele próprio havia perdido a virgindade com 15 anos. Resolveu voltar pra sala, e o laptop estava lá, aberto na folha em branco do Word. Começou a sua história. ‘ E o pássaro voou...’ Não conseguia passar daí, mas era um começo.

Ele estava falando da filha, claro. A menininha voou e deu lugar pra mulher. Agora viriam filas e filas de namorados, ele com certeza não simpatizaria com a cara da maioria deles, mas aceitaria. De repente ele escuta o barulho da porta da sala e a Bianca aparece. Sozinha.

- Pai, você entrou no meu quarto?
- Não filha, porque?
- Ah... nada não. É que eu escutei o barulho da porta.
- Você deve é ter sonhado com isso. Ta na hora do café da manhã, melhor já acordar.
- Não não pai, não to com fome e provavelmente nem vou sair do meu quarto hoje. Prova de química amanhã. Tem uns lanchinhos que a mamãe deixou lá, eles vão forrar meu estômago. Vocês vão pra casa da tia Cida pro almoço hoje, né?
- Vamos sim.
- Ok então. Eu queria que, por favor, o senhor não fosse lá no quarto hoje. Eu realmente preciso estudar.
- Tudo bem filha, não a incomodarei. Bom estudo. Qual é a matéria mesmo?
- Química.
- Hm, e ele é bom em química?
- Ele quem?
- O moleque que ta dormindo com você.
-
-
- Pai...
- E eu realmente duvido que alguns sanduichinhos vão forrar o estomago dele, ninguém come tão pouco que nem você, muito menos um homem. E vai logo lavar esse rosto, porque se ele ver essa sua cara com certeza desapaixona.
- Pai... desculpa.
- Pelo que? Olha sua idade minha filha, se você acha que é a hora eu não posso discutir. E por mais careta que pareça, realmente não esquece da camisinha.
- Tudo bem...
- Ele é seu namorado?
- É sim pai, já tem um tempo...
- Então quando ele acordar traz ele pra tomar café da manhã com a gente. To imaginando a cara do Gustavo quando ver você com um menino.
- Nossa pai, eu pensei tanto em te contar. Se eu imaginasse que você teria essa reação já tinha contado faz tempo.
- Tudo bem filha.

Ela o encarou e sorriu. Ele sabia o que ela estava sentindo porque ele sentia o mesmo. Companheirismo. Ele sorriu. E toda a inspiração que ele precisava chegou. Ele apagou o que já havia escrito e começou ‘ E o pássaro pousou...’

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eu queria

Eu queria falar que estou cagando e andando pra você

Eu queria gritar pro mundo que não quero mais te ver

Eu queria te olhar, sorrir e te esquecer

Eu queria

Eu queria

Sentimento novo, mais um, pra entrar pra coleção

Você me mostrou um mundo de diferente percepção

Você, que eu ri, você, que eu neguei

Você que eu quero, você que eu larguei

Sai, sai daqui

Sai de dentro

Lá do fundo

Sai

Sai

terça-feira, 13 de outubro de 2009

pro Lucas Arnaud,

É estranho ver a vida mudar. É estranho olhar o velho indo embora e ver o novo chegando. É sempre estranho, mas nem sempre ruim.


Acho que todos que estão lendo isso concordam que tem alguém em quem se segurar, alguém que realmente significa algo pra você, ou alguém que você não consegue viver sem. Pode ser homem ou mulher, amigo ou parente. Pode acreditar nas coisas que você acredita, ou não. Pode ter tudo a ver com você, ou nada. Podem ter crescido juntos, ou conhecido na semana passada. Ainda sim você não vive sem, não dá.

É como se fosse um refúgio pra sua consciência, um mundo paralelo. É aquela voz que fica soando na sua mente quando você sabe que está fazendo besteira. É o seu medidor do certo e do errado. E não importa a merda que você faça, ele vai estar sempre lá.
Ter um melhor amigo é gostar de alguém tanto quanto você gosta de você. E se importar com a vida dela na mesma proporção que você se importa com a sua. Porque você sabe que enquanto ele não estiver bem você não estará. É se sorrir quando ele vence, e chorar quando ele perde. É ser a opinião que faltava, ou ser a quietude que ele precisa. É não precisar falar.

No meu caso eu realmente não esperava. Não esperava que viesse ser uma pessoa tão diferente de mim, e ao mesmo tempo tão parecida. Não imaginava que viria de um grupo que eu costumava abominar, e que agora eu pertenço. Mas aconteceu, e foi ótimo.
Eu queria que palavras fossem o suficiente pra expressar o quanto eu o quero bem, mas não são. Eu queria que houvesse uma maneira de guardá-lo em um pote, pra ter sempre que eu precisar, mas não é assim que funciona. Meu pote será sempre a minha ajuda, a minha compreensão e o meu ombro.

Meu braço direito, e o esquerdo. Meu refúgio, meu melhor amigo. Obrigado.

sábado, 10 de outubro de 2009

E eu chorei,


Acordei e o céu estava claro, mas também estava escuro. Nele eu via imagens passando, pregadas nas nuvens. Meu primeiro beijo, meu primeiro texto, minha primeira máscara. Ao longe , nas nuvens, dava pra ver imagens em que eu aparecia, mas tinha certeza que ainda não tinha vivido. O futuro, não é? Que tal dar uma espiadinha? Não, prefiro deixar acontecer. Que graça teria ver a mulher da minha vida e ter certeza que ela iria me corresponder? E saber exatamente a cor das bochechas dos nossos filhos? Não, prefiro deixar acontecer.

Levantei e me olhei no espelho, ele ia se moldando ao que eu estava pensando, ao meu humor. De repente eu estava vestido exatamente como a minha alma pedia, e isso era estranho. Tinha coisas coloridas no cabelo, algo que sempre tive vontade mas nunca coragem. Olhei pela janela e vi que o mundo estava diferente. Vi as crianças que normalmente eram pedintes na minha rua, mas elas estavam diferentes. Sem trapos como roupas, elas estavam lindas. E brincando com todas as outras, em um parquinho posto no lugar onde ficava o lixão.

Vi as flores, e elas sorriram pra mim. Senti o vento, que sussurrou no meu ouvido:

- Vá a favela hoje, veja como ela ficou. Talvez queira levar a sua pipa.
- Mas eu não tenho uma pipa.
- Aquela amarela e vermelha.

Olhei para dentro e vi meu guarda chuva, era o que mais parecia com aquela descrição. E levei.

Cheguei onde ficava a favela, onde eu passava todos os dias, onde eu chorava muitas vezes, quando via crianças sem esperança nos olhos. Sempre gostava de lembrar algo que a mãe de uma amiga me falou um dia:

- Todos tem esperança.
- Não, existem pessoas sem alguma esperança.
- Sim, esses tem a maior das esperanças.
- E qual é?
- Eles tem esperança de um dia terem esperança.

As crianças não estavam mais lá. No lugar um gramado sem fim, vazio. Peguei a minha ‘pipa’ e andei pelo gramado, respirando o cheiro da alegria que agora contagiava o local. E vi, ao longe, pessoas vindo.

Irreconhecíveis, por causa da distância. Mas pouco a pouco eu percebia quem eram. Uma menina com os olhos marcados, com o sorriso no rosto, e com a barriga engravidada. E eu chorei, pois ela já não fumava mais.

Vi também dois meninos, as mãos dadas, o menor não prestava atenção em nada, somente no rosto do outro. E o maior ria, e suas orelhas estavam muito vermelhas. E eu chorei, pois o amor não seria nada, senão aquilo.

Vi uma outra menina, misteriosa. Não sabia o que ela estava fazendo, mas ela estava feliz. Ela tinha uma flor azul na mão esquerda. E eu chorei, pois eu senti que ela nunca me deixaria só.

Atrás dela vinha um menino. Na verdade não era um menino. Ele tinha asas. Mas também não era um anjo. Fiquei olhando e ele sorriu. E eu chorei, pois sempre soube que ele acabaria voando.

E assim passaram, de um por um. Uma francesa, uma cheia de vida, um palhaço, uma modelo, duas médicas, uma estrela... Eram todos meus amigos, meus abrigos, minhas forças, meu destino.

Abri a pipa-guarda-chuva e um arco-íris apareceu. O vento veio e eu senti que era a hora. Mas antes eu falei pra ele:

- Me diga que é tudo verdade.

E ele me disse:

- Você não viu as nuvens.

E eu chorei, pois nunca iria parar de sorrir.

Terça feira

E eu entrei no bar de sempre, sentei no balcão ao lado do banheiro, como de costume. Pedi um gim e uma tônica, o de sempre, e abri a tônica. Bebi a tônica e deixei de lado o gim(que é amargo e me lembra água sanitária).Você deve estar se perguntando porque eu comprei então. Simples, porque eu quis. Como eu quero todas as terças feiras desde que me mudei para esta cidade. Ok, tentei me socializar, era terça feira, então eu podia falar com duas loiras uma morena e um homem. Ofereci o gim para a primeira loira, nada, pra primeira morena, nada, pro homem, ele virou. A música estava alta e a minha preferida ainda não tinha tocado, pela regra ela deveria tocar antes de 11 horas, faltavam 7 minutos. Levantei e dei uma volta, pra ver o movimento, voltei para a mesma cadeira. Consegui o telefone da segunda loira. A música tocou. A loira tentou uma aproximação, mas hoje é terça e eu não fico com ninguém.

- Uma mulher me pediu ma caneta e eu disse que não tinha. Eu tinha, mas não empresto canetas em dia de terça.


A sua cara imutável

Seus traços congelados

E a sua pele fria,

E vazia.

Peguei uma foto sua. A minha preferida, claro, eu que tirei. E lembrei do dia em que a tirei.

Um pouco antes da foto você disse que sua orelha estava quente, nunca um bom sinal, e eu disse:

- Você me ama?

- Mais do que a mim própria.

- Então o que pode dar errado?

Nada, nada poderia dar errado. E o seu rosto continua na minha frente, como se fosse real, sinto o teu cheiro pelo papel da foto e meu coração se alegra com uma mera lembrança do que você é.

Enfim, você ficou quieta, e eu tirei a foto. Na hora eu não interpretei o teu silêncio como deveria. Deveria ter prestado atenção nos sinais bobos, mas você sempre brincava com isso.

- Saudade mata?

- Não.

- Como não? Você não sabe.

- Sei sim, não pode matar, não pode.

- Tá tudo bem?

- Promete que nunca vai morrer de saudade?

E eu prometi. Agora não sei se sou capaz de cumprir essa promessa. Na hora, no instante, eu achei que você tinha medo de me perder. Só agora vejo que você tinha medo de eu me perder.

Teus olhos continuam a me encarar, quando fecho os meus olhos, só me lembro dessa imagem: Seu rosto sério, lábios cheios, olhar muito profundo, melancólico. Parece uma estátua.

Agora que você é pó, eu estou me deteriorando. Eu vou virar pó. Contra a sua vontade, quebrando a ultima promessa. Pó, de cheirar, pó, de soprar.

Eu sou pó, você é pó.