sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O final do túnel.



Eu tenho 72 anos, e como vocês devem imaginar, passei por muita coisa nessa vida. Sempre quando pensava em minha velhice me vinha na cabeça coisas muito melhores do que o destino acabou me reservando. Pensava que depois de uma vida de trabalho árduo, muitas vezes obsessivo e doentio, poderia sossegar numa casa legal, sendo sempre visitado por meus filhos. Com o dinheiro que guardei eu ia fazer viagens espetaculares, conheceria cada esquina de Paris, viajaria pelo mundo com pouquíssimas preocupações, as vezes até incluía em meus devaneios que meus filhos me acompanhariam, talvez com os filhos deles, um grande tour em família, sabe? Depois, quando voltássemos, faríamos os cômodos e rotineiros churrascos aos domingos, a família toda, festejando as datas comemorativas, ou a união de alguém da família. As crianças na piscina, nos irritando repetidamente com gritos e nos molhando com prazer, de vez em quando se machucando, a família toda correndo pro hospital. No natal, a família toda unida, uma grande ceia, com celebrações e alegrias, tudo no espírito de natal, você deve imaginar como. A mesa farta e nós agradecendo por mais um natal em família. De vez em quando eu faria aquelas excursões para o sul do país, com outros idosos, e quando voltasse, meus filhos e netos estariam me esperando. Uma alegria como nunca teria em toda minha vida, tudo muito bem planejado, resultado de uma vida de esforço que valeria a pena ao ver meus netos crescerem, e meus filhos serem ajudados pela poupança que fiz pra eles.

Faz 13 anos que não vejo meus filhos. Recebo notícias no máximo duas vezes ao ano, na maioria das vezes por cartas. Moro numa casa de repouso, eles a bancam pra mim. Todo o dinheiro que guardei para uma velhice segura está nas mãos dos meus filhos, e pelo que me escrevem eles parecem usufruir muito bem desse dinheiro. Tenho um grave problema nos ossos, que vêm me impossibilitando de andar sem ajuda à alguns anos, fora o problema nos ossos descobri que sou diabético, e tenho um sério problema de pressão alta. Tomo remédio controlado para a pressão, diabete, asma e bronquite(que só vim a adquirir depois de idoso) e para minha pele, pois devido a minha grande exposição ao sol quando era novo, eu fiquei com várias manchas na pele e uma grande probabilidade de ter câncer de pele. Fico 4 dias da semana deitado numa cama precisando de ajuda para respirar. Uma enfermeira da casa traz minha comida e muitas vezes não estou em condições de me alimentar sem ajuda. De vez em quando ela lê pra mim, poemas, que me fazem lembrar da minha juventude e do quanto eu era feliz. Me faz lembrar de quando eu corria pela lagoa, jovem, alto, forte e bonito. Nada me impedia naquela época, nada e nem ninguém. Vivia o melhor da vida, aproveitando o máximo, não tinha certeza de como seria meu futuro, mas sonhava com coisas maravilhosas. E agora estou deitado nessa cama, com dificuldade pra respirar e sem família, sem amor. Sobrevivendo ao invés de viver, vendo tudo o que eu construí e sonhei sendo rapidamente rasgado e despedaçado. Não conheço 4 de meus 5 netos. Não me lembro da ultima vez que me senti capaz, vivo. Na verdade, eu já morri faz muito tempo, minha alma deve estar vagando em algum lugar por aí, esperando que meu corpo se envenene de vez para poder ir descansar em paz. Aliás, perdi até as esperanças de descansar em paz. Agora, minha vida se resume em morrer, em esperar. Sonhei alto, batalhei por um mundo melhor, me iludi e iludi todos a minha volta achando que poderíamos fazer a diferença. Ninguém faz a diferença, tudo acaba, todos acabam.

4 comentários:

Mariana Moura disse...

que pessisimismo...
gostei x)

Anônimo disse...

Esses posts teus tem me envergonhado. Haja falta de fé.

h.b disse...

[b]você[/b] está me falando sobre falta de fé? ¬¬
e ser melodramático é o que há.
ashusauhsa

Anônimo disse...

Eu? Falta de fé? Expanda..