sábado, 16 de julho de 2016

Das dez às onze

Um mar de pessoas em direção ao mar
As crianças gritando mas sem festejar
O dia de alegria de repente decidiu acabar
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10:15
  Andava por aquela rua carregando meu casaco na mão. Sabia que o clima na França era mais frio do que estava acostumado, mas tinha esquecido das pessoas que na rua aquele dia faziam um trabalho muito mais eficiente do que os aquecedores dos bares onde visitei.
  O som que se ouvia era de conversas gritadas, de uma música bem alta em um francês inteligível (e francamente pra mim qualquer francês era inteligível) mas aproveitava mexendo os ombros timidamente, fingindo qualquer costume, enquanto tentava atravessar a multidão.
  Muitas crianças de mãos dadas com seus pais, boca suja de algodão doce e aquele sorriso inocente exclusivo das crianças que diz “esse é o melhor dia da minha vida” mesmo nas tardes mais nubladas.

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10:19
  Não muito longe, há duas quadras dali, ele olhava pro seu chaveiro. Ou era para os dedos que insistiam em tremer? Ou será que o chaveiro e o dedo eram apenas um ponto fixo pra descansar os olhos já que a mente experimentava fatiga de tanto exercício?
  Tinha que dar certo, mesmo se desse errado.
  Está longe de mim tentar descobrir o que o motivara a estar em sua casa naquela noite, talvez uma falta de vontade de se integrar com os outros, talvez algum trauma de multidões tenha ativado dentro de si a vontade de sair de casa naquele estado.
  Ele estava nervoso, mas decidido. Uma voz parecia lhe dizer volta pra cama, mesmo depois de tantos planos, mesmo que ele não tivesse vontade de levantar no outro dia. Mas ele cometeu um engano que na verdade é mais comum do que imaginamos: confundiu prudência com nervosismo e decidiu seguir em frente. Sentado no banco do motorista, não olhou mais para trás.
Se desse certo, se desse errado, não daria mais para se apegar aos pensamentos do que fica pra trás.

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10:25
  O primeiro grito chegou nos meus ouvidos como um eco distante, me lembrou as vezes quando estamos escutando música em um lugar barulhento e não conseguimos decifrar exatamente se o som estranho que aparece vem da música ou das pessoas do nosso lado.
  Já no segundo grito, que demorou menos que o tempo de olhar pra trás, todos os meus pelos arrepiaram, as pernas pareceram me enganar e eu tinha a sensação que o que estava por vir mudaria a minha vida.
  Que sensação idiota essa, tenho que confessar. A minha vida pouco importou comparado com o que aconteceu depois.
  De longe se via um caminhão branco, rápido demais para não saber que a rua estava fechada e entupida de gente festejando.
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10:32
PFFFF PFFF PFFFFF
Ele passou pela primeira aglomeração
Lembrou vagamente de um jogo de boliche
Mas a adrenalina não deixava os pensamentos terem forma
PFFFF PFFFF
Agora é tarde pra parar
PFFFF PFFFF PFFF
Ele não quer parar. E num mundo de obrigações e expectativas, um mundo de desilusão e falta de compaixão, o querer é mais que suficiente pra te fazer errar. Pela primeira vez o controle era dele e ele apertava o botão que quisesse.
Apertou, o acelerador.
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10:35
  No tempo que ele chegava perto da segunda multidão (a mais volumosa e a que eu tinha tentado me infiltrar no começo da noite) eu já estava em direção a areia. Pensava que o quer que estivesse tentando nos matar, não me pegaria se eu estivesse dentro d’água. No entanto tive tempo de marcar na minha memória cenas que eu poderia dizer serem de filme de terror, mas os filmes de terror não conseguem captar o silencio do pânico.
  Digo silencio não porque todos estavam quietos, aliás escutavam-se mais alto ainda os gritos, crianças e adultos, alguns sendo atingidos e descartados pelo chão formando uma trilha de sangue e partes de corpo, uma trilha de memórias desperdiçadas e sapatos rasgados, uma trilha de vida que não mais é viva.
  Mas existe um silencio no meio do pânico, um silencio sutil e quase imperceptível se você não estiver prestando bastante atenção. É o silencio que grita uma indignação e todos parecem sentir ao mesmo tempo, uma incredulidade com o que seus olhos veem. É a certeza de que não há limites para um homem atormentado ou a dúvida do que será da sua vida agora que presenciou o inimaginável.                                  
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10:57

  Já de volta a rua, agora aglomerada de policiais, vi o que me lembrou das fotos de guerra que estampavam as páginas dos meus livros de história. Aparentemente tinha acontecido uma troca de tiros com a policia, e o motorista do caminhão estava morto, junto com incontáveis corpos espalhados pela rua. Todos choravam, alguns pelos olhos, outros pela boca. E quanto mais eu escutava os gritos de turistas perdidos, o choro de mães desoladas, o desespero de filhos abandonados, mais eu desejava estar bem longe dali.
  Fui andando, a procura de alguém que de alguma forma eu pudesse ajudar, e no caminho escutei uma francesa que vivia em Nice, falando com uma voz quase de professora um inglês arrastado que dizia: “O medo que ele tentou colocar na vida dos que passavam aqui hoje não pode ser maior que a vontade de se unir de um povo traumatizado. Enquanto o mal trabalha solitário, a nossa força aparece quando estamos juntos. Não tenho raiva, porque foi ela que motivou ele a sair de casa hoje. Não tenho medo, porque medo nos impede de compreender e não há reação eficaz sem compreensão.” Eu escutava isso com uma mistura de admiração e julgamento quando um senhor gritando disse que precisava de alguém pra ajudar a carregar o soro de uma vitima que estava sendo socorrida e transferida pra ambulância. 
  Minhas pernas não só voltaram com força total, elas pareceram correr sozinhas até o soro que atravessou a minha mão ao tentar alcança-lo. Tentei mais uma vez. Nada. Olhei pro senhor que continuava gritando. Falei com ele. Não me escutava. O toquei mas ele não me sentia. Agora no meu quarto finalmente percebo que não há como ajudar apenas por querer, não se pode sentir aquilo que não acreditou e nem julgar uma vida que não viveu. O pensamento te leva até a fronteira entre o querer e fazer, meu desejo é apenas atravessar.

(Sobre Nice, 2016)

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