quarta-feira, 14 de julho de 2010

Parte 1


Ela não agüentava mais ser menina, não agüentava mais ser chamada de linda e de mandar na escola. Não agüentava mais os shoppings, não agüentava mais pintar quadros e queimá-los por vergonha. Não agüentava mais fingir que estava bêbada com medo do que pudesse acontecer se ela bebesse mais um gole e realmente se embriagasse.

Ela olhou pro quarto –muito rosa – e correu pra fora de lá. Seus pais estavam trabalhando, seu irmão mais novo tinha ido dormir na casa de um amigo. Ela abriu a primeira gaveta da cômoda dos pais e pegou um maço de cigarros. Foi à varanda e acendeu um. Tossiu por um tempo.

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Resolvi sair desse mundo, resolvi correr pra fora dessa bolha, mas não quis me matar. A morte simples e pura não leva a nada. Não me traria nada. Eu precisava era fugir de tudo.

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Correu e fez uma grande mala. Ela não era dramática o bastante pra fugir com a roupa do corpo só para mostrar rebeldia. Entupiu de coisas que ela achava que seriam interessantes. Comprou uma passagem pra onde Judas perdeu as botas e encarou as longas horas de viagem.

Ela precisava de terra, de folhas, de seres vivos que não a enganassem e não a forçassem engolir suas visões.

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Quando eu cheguei lá nada mais importava, eu tirava fotos e fotos, eu procurava inspiração naquele meu livro favorito. Eu precisava de ar, e o ar estava ali. Foi a maior sensação de poder que eu já tive. Mais do que aquele dia que eu te liguei contando da bolsa Louis Vuitton que eu comprei.

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O que seria dali pra frente? Ela não se importava. Ela não se importava se teria que voltar pra casa, se nunca mais voltaria. Não se importava se o mundo explodisse, se a economia quebrasse, se o Iraque ganhasse. 

Ela era aquela terra, uma conexão tão forte que ela podia jurar que sentia as minhocas atravessando o seu ser. Ela era livre, uma liberdade bonita e pobre.

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Eu não conseguia parar de sorrir.

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