sábado, 30 de maio de 2009

Trecho.

— E de qual gostarás mais, da pálida, da loira ou da moreninha?...

Creio que gostarei, principalmente, de todas..

— Ei-lo aí com sua mania.

— Augusto é incorrigível.

— Não, é romântico.

— Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.

Não diz o que sente.

— Não sente o que diz.

— Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.

— O que quiserem... Serei incorrigível, romântico ou velhaco, não digo o que sinto, não sinto o que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso, e vocês inocentes e anjinhos. Todavia, eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei: em toda a parte confesso que sou volúvel, inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um "eu vos amo" , mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o como sou; e se, apesar de tal, sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis, a culpa, certo que não é minha. Eis o que faço. E vós, meus caros amigos, que blasonais de firmeza de rochedo, que jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas... sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!... Mas entre nós há sempre uma grande diferença; vós enganais e eu desengano; eu digo a verdade e vós, meus senhores, mentis...

— Está romântico!... Está romântico!... exclamaram os três, rindo às gargalhadas.

— A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou feliz na minha inconstância, porque, apaixonando-me tantas vezes, não chego nunca a amar uma vez...

— Oh!... Oh!... Que horror!... Que horror!...

— Sim! Esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia, às vezes numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida, interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm damas; porque sempre têm damas; eu nunca amei... eu não amo ainda... eu não amarei jamais.

— Ah!... Ah!... Ah!... E como ele diz aquilo!

— Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa sentimental; lá vai: afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça durante quinze dias.

— E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de... loucamente apaixonado de alguma de minhas primas.

— Pode bem suceder que de ambas.

E que todo resto do ano letivo passarás pela rua de... duas e três vezes por dia, somente com o fim de vê-la.

— Assevero que não.

— Assevero que sim.

— Quem?... Eu?... Eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua por causa de uma moça?... E para quê?... Para vê-ia lançar-me olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?... Para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo, paleta, basbaque e namorador?... Não, minhas belas senhoras da moda! Eu vos conheço!... Amante apaixonado quando vos vejo, esqueço-me de vós, duas horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. Ah! ... Muitas vezes, alguma de vós, quando me ouve dizer: "Sois encantadora", está dizendo consigo: "Ele me adora", enquanto eu digo também comigo: "Que vaidosa!"

— Que vaidoso!... te digo eu, exclamou Filipe.

— Ora, esta não é má!... Então vocês querem governar o meu coração?...

— Não; porém eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas durante todo o tempo que for da vontade dela.

— Que mimos de amor que são as primas deste senhor!

— Eu te mostrarei.

— Juro que não.

Aposto que sim.

— Aposto que não.

— Papel e tinta: escreva-se a aposta.

— Mas tu me dás muita vantagem, e eu rejeitarei a menor. Tens apenas duas primas: é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoquem para me encantar: meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois, tenham o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!

— Como quiseres, mas escreve.

— E quem perder?...

— Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.

Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano.

— Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás a história da tua derrota; e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstância.

— Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz, será o autor.



A Moreninha. Joaquim Manuel de Macedo, cap.1, trecho.




Mariana Filizola

segunda-feira, 18 de maio de 2009

sem sorriso, sem sofrimento, sem personalidade, sem nada.

Corta meus dedos, Vai, Corta
Bebe meu sangue com sede de um vampiro
Destrói o meu corpo porque já não tenho alma
E de nada adianta viver sem poder sentir

Em meio as tuas brincadeiras levaste meu sorriso
Em meio aos teus problemas, levaste meu sofrimento
Em meio aos teus batuques, levaste minha personalidade

Sou louco, desesperado por você
E não acho nem mais o porquê
Nem vivo esse amor sofrido

Sou um quadro vazio
Que sonha em uma dia ser pintadode qualquer jeito, qualquer borrão abstrato
- Mas tocado por você

Como é agonizante essa dor
Que nem me assusta mais
Só alimenta a unica coisa que não posso desejar
Ter sequer um terço de ti para poder amar.

Você é fraco, Doutor.

Você, que tem medo do medo
Que faz do sofrimento o teu alimento
Que chora os lágrimas das manhãs caídas
E que canta teus pesares como quem canta músicas alegres

Você não consegue ficar no escuro
Morre quando pensa na morte
E se desarma quando te machucam

Você é fraco, Doutor
É só carcaça
É como uma criança sem o presente de Natal
Você é o lado de fora, Doutor
Falta-te o lado de dentro.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

- Eu não te disse?
- Disse o que?
- Que estaria sempre aqui.
- É, disse.

-Toca aqui.
-
-Deixa que eu toco sozinho.