Nelson Rodrigues é um gênio, fato! Hoje parei para reler a peça que mais gosto dele "A mulher sem pecado", é impressionante a alma dos personagens, o conflito interno de Olegário que faz quem estar lendo ficar angustiado, a pureza de Lídia que agüenta o ciúmes doentio de seu Marido.
Olegário é uma paralítico casado com Lídia, ele tem um ciúme angustiante e a questiona todo o tempo sobre a fidelidade, inventa histórias mirabolantes e coloca pessoas para vigiá-la até quando vai a padaria. E Lídia é totalmente fiel a seu marido e agüenta as loucuras que ele faz por causa desse ciúmes, Olegário no fundo sabe que sua mulher é fiel mas não se conforma com isso e coloca na cabeça dela que ela tem que ser infiel, inventa bizarrices como quando fala que ela o trai quando esta no chuveiro, olhando o próprio corpo, pra ele isso é uma infâmia. Uma peça altamente psicológica que consegue encantar qualquer um que esteja lendo.
Um trecho que consegui pegar na internet:
(Olegário vira a cadeira e a impulsiona até a outra extremidade do palco. Lídia tem um olhar intraduzível para a cadeira. Olegário volta para junto de Lídia e d. Aninha.)
OLEGÁRIO (cruel) - V-8!
LÍDIA (virando-se, rápida) - O quê?!
OLEGÁRIO (com rancor e com voz surda) - V-8! V-8, sim! Não adianta olhar para mim dessa maneira, (com escárnio) V-8! No Grajaú era assim que todo o mundo chamava você. Ou vai dizer que não?
LÍDIA (desesperada) - Você está vendo? É por isso que eu evito vir aqui! Para não ouvir o que Você me diz! Para não agüentar seus ciúmes!
OLEGÁRIO (com insistência cruel) - Mas chamavam ou não chamavam você de V-8?
LÍDIA (sem lhe dar atenção às palavras) - Engraçado, Você não era assim!
OLEGÁRIO (obcecado) - V-8! (Lídia vira-se para olhá -lo com absoluto desprezo. Olegário está de costas para a platéia.)
LÍDIA (com voz surda)- Continue dizendo V-8! Continue!
OLEGÁRIO (cínico)- Você quer saber de uma coisa? Eu acho que a fidelidade devia ser uma virtude facultativa.
LÍDIA (com desprezo)- Desistiu de me chamar de V-8?
OLEGÁRIO (continuando, cínico)- Você não acha que seria negócio pra você e para todas as mulheres? Que a fidelidade fosse uma virtude facultativa? A mulher seria fiel ou não, segundo as suas disposições de cada dia.(sardônico) Você com o direito --- de ser infiel. Que beleza!
(Lídia volta-se para d.Aninha, ficando de costas para a platéia)
OLEGÁRIO (perverso)- Não diz nada?(Lídia, em silêncio. Olegário mete a mão no bolso. Tira o telegrama. Lê para si.)
OLEGÁRIO (com intenção) - Eu tenho aqui um telegrama que você daria tudo para ler!
LÍDIA (cortante) - Não me interessa!
OLEGÁRIO (positivo) - Isso é o que Você pensa! (provocador) Se você soubesse o que diz esse telegrama! Faça uma idéia!
LÍDIA (desabrida) - Não faço idéia nenhuma!
OLEGÁRIO (enigmático) – Sabe quem sofreu um acidente? Imagine!?
LÍDIA (vira-se para Olegário. Olha-o) -Quem?
OLEGÁRIO (com afetação) - Coitado! Um desastre de automóvel - veja você! Ficou com as duas pernas esmagados!
LÍDIA (contendo-se) - Mas quem foi?
OLEGÁRIO (sardônico) - Então não desconfiou ainda?
LÍDIA (nervosa) - Desconfiar de quê, Olegário? Diga!
OLEGÁRIO (cruel) - Quem ficou com as pernas esmagados! Foi seu amante! Ficou com as duas pernas esmagados! (Lídia recua, de frente para Olegário, em direção da escada.)
LÍDIA - Não! Não! Eu não tenho amante! Nunca tive amante! (Olegário a acompanha, na cadeira de rodas.)
OLEGÁRIO (num grito estrangulado) - Me enganando... Me traindo...
LÍDIA (com expressão de terror) - Eu vou-me embora. Não fico mais aqui!
OLEGÁRIO (impulsionando a cadeira, enquanto Lídia recua) - Vai embora, para onde? (como que caindo em si) Lídia! Venha cá, Lídia!
LÍDIA (no segundo degrau, de frente para Olegário, obstinada) - Eu vou-me embora!
OLEGÁRIO (encostando a cadeira na escada, em pânico) - Não, Lídia! Desça! Eu menti! Desça!
LÍDIA (subindo mais um degrau, implacável) - Não!
OLEGÁRIO (em pânico) - Foi brincadeira, Lídia! Venha cá !
LÍDIA (com rancor) - Brincadeira, isso?
OLEGÁRIO (suplicante) - Eu quis fazer uma experiência com você, Lídia! Inventei a história das pernas esmagados. Desça, Lídia! Desça! O telegrama não tem nada! É outra coisa!
(Lídia desce lentamente e senta-se no primeiro degrau.)
LÍDIA (patética)- E eu ter que aturar isso!
OLEGÁRIO- Eu quis ver se você caía. (sardônico) Uma notícia dada a queima-roupa às vezes produz reações surpreendentes. (para Lídia, com excitação)Se você desmaiasse, dissesse um nome...
LÍDIA (dolorosa) - Ah, meu Deus! Dia e noite, a mesma coisa! (espremendo a cabeça entre as mãos) Antigamente, Você não era assim!
OLEGÁRIO (virando a cadeira) - Não era assim, como?
LÍDlA (amarga) - Não era assim, não! Está assim depois que ficou doente. Antes, preferia o escritório a mim. (excitada) E só conversava sobre negócios. (Vem sentar-se numa cadeira.)
OLEGÁRIO - Mas você era feliz, não era?
LÍDIA (excitada) - Feliz, eu! (afirmativa) Nunca fui, meu filho! (com ironia e noutro tom) Como eu poderia ser feliz abandonada? Abandonada, sim, por um marido que chegava em casa às 2, 3 horas da manhã!
OLEGÁRIO (sem olhar para a mulher) - Diga só uma coisa. Você não teve sempre "tudo" de mim, tudo?
LÍDIA (amarga) - O que é que Você chama "tudo"? (noutro tom) Já sei. "Tudo" para você são móveis, casa, automóvel, cinema, dinheiro! - "Tudo"! Você se esquece que eu tive "tudo" -'como você diz - tudo, menos marido. É o que muitas não têm - muitas - marido!
OLEGÁRIO (irônico) - Então você nunca teve marido?
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LÍDIA (cansada) - Olha, Olegário, eu vou ver uma coisa lá em cima. (Lídia começa a sair para a escada)
OLEGÁRIO (baixo) - V-8!
LÍDIA - O quê?
OLEGÁRIO - V-8!
(Desesperada, Lídia sobe a escada correndo. O olhar de Olegário acompanha Lídia. Luz em penumbra. Luz vertical sobre Olegário.)
Enfim, se alguém quiser criar um grupo de teatro e montar "A mulher sem pecado" me chamem, por favor. ;)
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Nelson Rodrigues
Postado por h.b às 16:19
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