E então ela entrou, aplaudida de pé por todos os convidados. Seus amigos, familiares e colegas de trabalho a olhavam, e admiravam. Seu vestido era verde claro, lindo, longo, e combinava com os olhos de seu agora marido. Ela não conseguia parar de sorrir, sorria pras câmeras, pros presentes, pra decoração, pras pessoas e pra si mesma. Ela conseguiu, toda a insegurança da adolescência havia passado. Mas quem poderia duvidar? Era óbvio que ela seria feliz.
Em um dos espaços do salão, viam-se flores pintadas nas paredes, com escritas do principezinho. Ela e mais cinco pessoas olhavam e não podiam deixar de lembrar das tardes, dos cantos e da felicidade que se estendeu num quarto tão bonito, durante todo o tempo. Estava tudo perfeito, tudo muito bem planejado por ela e por seus amigos que não deixariam de palpitar nem sobre a cor dos lençóis da noite de núpcias.
O casal ficou minutos em frente as câmeras, que a cegavam com tantos flashes. Ela não se importava, passou vinte e sete anos esperando por esses flashes. O marido não parecia muito importado com as câmeras, ou com o salão, ou com as pessoas e a decoração. Ele não tirava os olhos de sua mulher, a qual ele escutou chorar tantas vezes e que o proporcionava o momento mais feliz de sua vida. Era a história sendo contada, e ele não se importava com os detalhes.
Ela logo perdeu a paciência, afoita como sempre foi, e gritou para os padrinhos se aproximarem. E eles foram chegando, para mais uma sessão de flashes.
O primeiro padrinho era alto, loiro e tirava fotos com alguns convidados que nem conhecia, pelo fato de o reconhecerem.Provavelmente o mais bem vestido da festa, que não deixava um detalhe escapar. Ele andava por todo o salão, elegante e perfumado, inspecionando maîtres e cerimonialistas. Os desavisados o confundiam com o noivo pela expressão de felicidade no rosto, e principalmente pelo tanto que cochichava com a noiva. Eles estavam em perfeita sintonia, talvez por se conhecerem tão intimamente bem, desde os tempos em que a palavra "casar" era tão distante quanto "normalidade". Depois de tantos sonhos e anos compartilhados, ele estava ali, para acompanhá-la no que talvez acabasse por se tornar uma drástica mudança, na vida dele principalmente. Por mais que tivesse muitos contatos, guardava amizades como aquela com uma garra terrível, talvez por tudo que a fama lhe tenha causado, talvez pelas desavenças da vida. Mas ali estava ele, mais uma vez, junto dos outros quatro amigos, apoiando-a no seu sonho de felicidade.
A primeira madrinha era morena e de um olhar penetrante, olhar que sorria mais sereno que o cair das águas sobre as pedras, ela estava muito feliz, e só conseguiu parar de abraçar a noiva quando foi repreendida por um padrinho pois estava começando a amarrotar os vestidos. Ela choraria, se conseguisse, talvez mais tarde. Mas ali não, não correria o risco de borrar a maquiagem ou de ter que sujar o lenço de um dos cavalheiros. Muito menos molhar, nem que fosse com uma gota, o vestido desenhado pra ela. Azul marinho, de um tecido grosso, descia de sua nuca, formando o desenho dos seios em um drapeado perfeito. E caindo pela sua cintura num corte que fazia o vestido se movimentar quase que sozinho. Era linda, e feliz. Acostumada com horários certos estava nervosa pelo bolo ainda não ter sido cortado. Mas estava extremamente feliz por ver seus amigos ao seu lado, era tudo que ela sempre sonhou, escreveu e cantou.
A seguir chegou outro padrinho, com os cachos loiros bagunçados, traço gritante de sua personalidade. Todos que conheciam os cinco amigos tinham certeza de que ele fora vestido pelo primeiro padrinho, que nunca o deixaria ir desarrumado para uma festa como aquela. Mas que o poupou o aperto da gravata, dando um ar despojado ao traje que combinava perfeitamente com seu cabelo. Ele não sabia direito pra onde olhar e que cara fazer, nunca foi acostumado com fotos e rendeu as poses mais bizarras durante a adolescência fotografada. Ele demonstrava a sua felicidade de um jeito muito próprio, e abraçou a noiva com uma ternura que a fez chorar, pela milésima vez na noite. Ele ficou ao lado de um outro padrinho, e ambos conversavam enquanto a maquiagem da noiva estava sendo retocada.
O tal outro padrinho era moreno, alto, forte e o brincalhão da turma. Chorava fácil pois tinha um dos corações mais puros já colocados nesse mundo. Lembrava e ria dos tempos em que ele imaginava ser o noivo neste dia, ele era tão feliz que iluminava o grupo inteiro. Correu quando viu Juliana subindo na mesa pra brincar com os talheres, tirou-a da mesa e a colocou no colo e sua mãe. Uma mulher linda, que parecia amá-lo como ninguém, e que ficou apreensiva ao ver que tinha descuidado da filha, mesmo sabendo que o marido não a repreenderia por isso. Ele vestia um terno padrão, clássico e também estava muito elegante. Voltou para o seu lugar e se preparou para as fotos.
Em seguida veio um casal de padrinhos, a mulher andava com passos indescritíveis, muito segura em um salto dourado que combinava com seu vestido cor de pêssego. Parecia uma boneca, mas tinha um mistério tão forte como o de um leão. Ela sorria para a noiva, para o noivo, para os convidados, para o seu amor que debutou com ela e que pretendia pedi-la em casamento em pouco tempo. Fazia caretas pros amigos e ajeitava a gravata de seu homem que estava torta de novo. Ele foi durante toda a adolescência comparado com o segundo padrinho, também tinha cachos e ambos sorriam um sorriso muito comprido. Mas hoje eles estavam diferentes, ele não exibia cachos bagunçados como o segundo padrinho, dessa vez eles estavam muito bem arrumados e sua elegância era muito mais comum e serena.
Estavam ali, os cinco amigos, juntos como sempre e rindo para as câmeras. Eles lembravam das tardes juntos, das inseguranças, dos cantos, da viagem de formatura onde foram à Europa. O Heitor lembrava das tentativas de francês que tentou falar, a Mariana do alemão que conheceu na estação de trem, o Gabriel só conseguia lembrar dos sorrisos e das caminhadas durante a noite pela cidade, o Lucas lembrava dos palhaços que o chamaram ao picadeiro no dia em que visitaram o circo, Tereza lembrava das flores que inesperadamente ganhou do Felipe, que nunca tinha feito uma viagem tão perfeita em toda a sua vida.
Em uma das mesas um homem gritou, sorrindo:
- O que é o amor, Rakel?
O salão gargalhou, e ela respondeu:
- O amor é o ridículo da vida, Luquinhas, lembra?
E então ela olhou pra cada um dos padrinhos e para seu noivo e disse:
- O meu amor é todo de vocês, ridículos.